Questão FC89747
A palavra sonho significa muitas coisas diferentes: “o sonho da minha vida” e “meu sonho de consumo” são expressões usadas pelas pessoas para dizer que pretendem ou conseguiram alc
Interpretação de Textos (Compreensão)
CEBRASPE (CESPE) · 2021
A palavra sonho significa muitas coisas diferentes: “o sonho da minha vida” e “meu sonho de consumo” são expressões usadas pelas pessoas para dizer que pretendem ou conseguiram alcançar algo. Todo mundo tem um sonho, no sentido de plano futuro. Todo mundo deseja algo que não tem. Por que será que o sonho, fenômeno normalmente noturno que tanto pode evocar o prazer quanto o medo, é justamente a palavra usada para designar tudo aquilo que se quer ter?
O repertório publicitário contemporâneo não tem dúvidas de que o sonho é a força motriz de nossos comportamentos, a motivação íntima de nossa ação exterior. Desejo é o sinônimo mais preciso da palavra “sonho”. Na área de desembarque de um aeroporto nos Estados Unidos, uma foto enorme de um casal belo e sorridente, velejando num mar caribenho em dia ensolarado, sob a frase enigmática: “Aonde seus sonhos o levarão?”, embaixo o logotipo da empresa de cartão de crédito. Deduz-se do anúncio que os sonhos são como veleiros, capazes de levar-nos a lugares idílicos, perfeitos, altamente… desejáveis. As equações “sonho é igual a desejo, que é igual a dinheiro” têm como variável oculta a liberdade de ir, ser e principalmente ter, liberdade que até os mais miseráveis podem experimentar no mundo de regras frouxas do sonho noturno, mas que no sonho diurno é privilégio apenas dos detentores de um mágico cartão plástico.
Entretanto, a rotina do trabalho diário e a falta de tempo para dormir e sonhar, que acometem a maioria dos trabalhadores, são cruciais para o mal-estar da civilização contemporânea. É gritante o contraste entre a relevância motivacional do sonho e sua banalização no mundo industrial globalizado. No século XXI, a busca pelo sono perdido envolve rastreadores de sono, colchões high-tech, máquinas de estimulação sonora, pijamas com biossensores, robôs para ajudar a dormir e uma cornucópia de remédios. A indústria da saúde do sono, um setor que cresce aceleradamente, tem valor estimado entre 30 bilhões e 40 bilhões de dólares. Mesmo assim impera a insônia. Se o tempo é sempre escasso, se despertamos diariamente com o toque insistente do despertador, ainda sonolentos e já atrasados para cumprir compromissos que se renovam ao infinito, se tão poucos se lembram de que sonham pela simples falta de oportunidade de contemplar a vida interior, quando a insônia grassa e o bocejo se impõe, chega-se a duvidar da sobrevivência do sonho.
E, no entanto, sonha-se. Sonha-se muito e a granel, sonha-se sofregamente apesar das luzes e dos ruídos da cidade, da incessante faina da vida e da tristeza das perspectivas.
Sidarta Ribeiro. O oráculo da noite: a história e a ciência do sonho. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, p. 19-20 (com adaptações).
A partir das ideias e da estrutura do texto CB1A1, julgue o item a seguir.O texto aponta dois problemas relativos ao sonho: a sua hipervalorização pela cultura consumista e a sua banalização pela indústria da saúde do sono.
- Certo
- Errado
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
Comentário: O item está correto porque o texto realmente apresenta dois problemas relacionados ao conceito de sonho. Primeiramente, há a hipervalorização do sonho pela cultura consumista, que é evidenciada quando o texto menciona como os sonhos são utilizados em campanhas publicitárias para incitar o desejo de consumo, sugerindo que a realização de um sonho está atrelada à compra de produtos ou serviços. Isso se torna uma forma de exploração da ideia de sonho, transformando-a em um mero vetor de consumo.
Em segundo lugar, fica clara a banalização do sonho gerada pela indústria da saúde do sono. O texto descreve a proliferação de produtos e tecnologias oferecidos para melhorar a qualidade do sono, mostrando que, apesar do crescente interesse e do valor elevado do setor, a insônia e a falta de qualidade no sono se tornaram ainda mais frequentes. Essa situação demonstra que, em vez de facilitar o acesso a um sono reparador, a indústria acaba por transformar uma necessidade vital em um negócio, minimizando a essência do sonho que vai além de questões de consumo.
Dessa forma, o texto afirma que, enquanto o sonho é exaltado como fonte de motivação e desejo, ele é, ao mesmo tempo, banalizado pelas pressões do mercado, levantando reflexões sobre como a sociedade contemporânea lida com esse fenômeno tão humano.
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