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Questão FC89786

Oh, Deus, meu Deus, que misérias e enganos não experimentei, quando simples criança me propunham vida reta e obediência aos mestres, a fim de mais tarde brilhar no mundo e me ilust

Interpretação de Textos (Compreensão)

CEBRASPE (CESPE) · 2021

Oh, Deus, meu Deus, que misérias e enganos não experimentei, quando simples criança me propunham vida reta e obediência aos mestres, a fim de mais tarde brilhar no mundo e me ilustrar nas artes da língua, servil instrumento da ambição e da cobiça dos homens.

Fui mandado à escola para aprender as primeiras letras, cuja utilidade eu, infeliz, ignorava. Todavia, batiam-me se no estudo me deixava levar pela preguiça. As pessoas grandes louvavam esta severidade. Muitos dos nossos predecessores na vida tinham traçado estas vias dolorosas, por onde éramos obrigados a caminhar, multiplicando os trabalhos e as dores aos filhos de Adão. Encontrei, porém, Senhor, homens que Vos imploravam, e deles aprendi, na medida em que me foi possível, que éreis alguma coisa de grande e que podíeis, apesar de invisível aos sentidos, ouvir-nos e socorrer-nos.

Ainda menino, comecei a rezar-Vos como a “meu auxílio e refúgio”, desembaraçando-me das peias da língua para Vos invocar. Embora criança, mas com ardente fervor, pedia-Vos que na escola não fosse açoitado.

Quando me não atendíeis — “o que era para meu proveito” —, as pessoas mais velhas e até os meus próprios pais, que, afinal, me não desejavam mal, riam-se dos açoites — o meu maior e mais penoso suplício.

Contudo, pecava por negligência, escrevendo, lendo e aprendendo as lições com menos cuidado do que de nós exigiam.

Senhor, não era a memória ou a inteligência que me faltavam, pois me dotastes com o suficiente para aquela idade.

Mas gostava de jogar, e aqueles que me castigavam procediam de modo idêntico! As ninharias, porém, dos homens chamam-se negócios; e as dos meninos, sendo da mesma natureza, são punidas pelos grandes, sem que ninguém se compadeça da criança, nem do homem, nem de ambos.
 

Santo Agostinho. Confissões. Montecristo Editora.

Edição do Kindle, p. 23-24 (com adaptações).


Com relação às ideias e aos aspectos linguísticos do texto precedente, julgue o item a seguir.

Infere-se do texto que o narrador fugia da escola, por causa dos castigos que recebia, e procurava abrigo na igreja, onde se sentia protegido por Deus.
  1. Errado
  2. Certo
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

Comentário: O gabarito está ERRADO porque o texto não menciona que o narrador fugia da escola ou buscava abrigo na igreja. Pelo contrário, o que se observa é que, mesmo ao enfrentar os castigos na escola, ele se voltava para Deus em suas orações pedindo proteção contra os açoitamentos.

O fragmento que diz: "Ainda menino, comecei a rezar-Vos como a 'meu auxílio e refúgio', desembaraçando-me das peias da língua para Vos invocar" revela que suas preces eram dirigidas a Deus, mas não implica que ele estivesse fora da escola ou buscando abrigo na igreja. Na verdade, ele se sentia angustiado e desejava simplesmente que os castigos não o atingissem, demonstrando seu descontentamento com a severidade do ensino.

Assim, a afirmação de que ele procurava abrigo na igreja e se sentia protegido por Deus extrapola as ideias apresentadas no texto, que se concentram mais na busca por alívio e na relação do menino com os castigos escolares, e não em sua fuga ou refúgio em um espaço religioso.

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