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Questão FC89787

Oh, Deus, meu Deus, que misérias e enganos não experimentei, quando simples criança me propunham vida reta e obediência aos mestres, a fim de mais tarde brilhar no mundo e me ilust

Interpretação de Textos (Compreensão)

CEBRASPE (CESPE) · 2021

Oh, Deus, meu Deus, que misérias e enganos não experimentei, quando simples criança me propunham vida reta e obediência aos mestres, a fim de mais tarde brilhar no mundo e me ilustrar nas artes da língua, servil instrumento da ambição e da cobiça dos homens.

Fui mandado à escola para aprender as primeiras letras, cuja utilidade eu, infeliz, ignorava. Todavia, batiam-me se no estudo me deixava levar pela preguiça. As pessoas grandes louvavam esta severidade. Muitos dos nossos predecessores na vida tinham traçado estas vias dolorosas, por onde éramos obrigados a caminhar, multiplicando os trabalhos e as dores aos filhos de Adão. Encontrei, porém, Senhor, homens que Vos imploravam, e deles aprendi, na medida em que me foi possível, que éreis alguma coisa de grande e que podíeis, apesar de invisível aos sentidos, ouvir-nos e socorrer-nos.

Ainda menino, comecei a rezar-Vos como a “meu auxílio e refúgio”, desembaraçando-me das peias da língua para Vos invocar. Embora criança, mas com ardente fervor, pedia-Vos que na escola não fosse açoitado.

Quando me não atendíeis — “o que era para meu proveito” —, as pessoas mais velhas e até os meus próprios pais, que, afinal, me não desejavam mal, riam-se dos açoites — o meu maior e mais penoso suplício.

Contudo, pecava por negligência, escrevendo, lendo e aprendendo as lições com menos cuidado do que de nós exigiam.

Senhor, não era a memória ou a inteligência que me faltavam, pois me dotastes com o suficiente para aquela idade.

Mas gostava de jogar, e aqueles que me castigavam procediam de modo idêntico! As ninharias, porém, dos homens chamam-se negócios; e as dos meninos, sendo da mesma natureza, são punidas pelos grandes, sem que ninguém se compadeça da criança, nem do homem, nem de ambos.
 

Santo Agostinho. Confissões. Montecristo Editora.

Edição do Kindle, p. 23-24 (com adaptações).

Com relação às ideias e aos aspectos linguísticos do texto precedente, julgue o item a seguir.

O narrador sofria castigos físicos na escola não porque tivesse dificuldade para aprender, mas porque gostava de jogar.
  1. Certo
  2. Errado
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Comentário: O gabarito está correto ao afirmar que o narrador sofria castigos físicos na escola não por dificuldades de aprendizado, mas por sua preferência em jogar. Isso é evidenciado em dois momentos do texto. Primeiro, ao afirmar que, apesar de ser “dotado com o suficiente para aquela idade”, o narrador negligenciava os estudos, o que revela que suas dificuldades não estavam relacionadas à capacidade de aprender.

Após isso, no trecho onde diz que “gostava de jogar”, fica claro que sua desatenção nas lições resultava de sua escolha de brincar, e não de falta de habilidade ou esforço. Observa-se também que esses castigos eram uma forma de disciplina de professores e adultos que, paradoxalmente, também se permitiam o divertimento, mostrando uma hipocrisia cultural. Portanto, a razão dos castigos se dava pela escolha do narrador por atividades lúdicas, reforçando a afirmação de que ele não tinha dificuldades para aprender, mas sim uma preferência que não era aceita no contexto escolar.

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