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Questão FC89835

Seja como for, está claro que a distinção entre o que seria natural e o que seria cultural não faz o menor sentido para os aborígenes australianos. Afinal de contas, no mundo deles

Interpretação de Textos (Compreensão)

CEBRASPE (CESPE) · 2022

Seja como for, está claro que a distinção entre o que seria natural e o que seria cultural não faz o menor sentido para os aborígenes australianos. Afinal de contas, no mundo deles, tudo é natural e cultural ao mesmo tempo. Para que se possa falar de natureza, é preciso que o homem tome distância do meio ambiente no qual está mergulhado, é preciso que se sinta exterior e superior ao mundo que o cerca. Ao se extrair do mundo por meio de um movimento de recuo, ele poderá perceber este mundo como um todo. Pensando bem, entender o mundo como um todo, como um conjunto coerente, diferente de nós mesmos e de nossos semelhantes, é uma ideia muito esquisita. Como diz o grande poeta português Fernando Pessoa, vemos claramente que há montanhas, vales, planícies, florestas, árvores, flores e mato, vemos claramente que há riachos e pedras, mas não vemos que há um todo ao qual isso tudo pertence, afinal só conhecemos o mundo por suas partes, jamais como um todo. Mas, a partir do momento em que nos habituamos a representar a natureza como um todo, ela se torna, por assim dizer, um grande relógio, do qual podemos desmontar o mecanismo e cujas peças e engrenagem podemos aperfeiçoar. Na realidade, essa imagem começou a ganhar corpo relativamente tarde, a partir do século XVII, na Europa. Esse movimento, além de tardio na história da humanidade, só se produziu uma única vez. Para retomar uma fórmula muito conhecida de Descartes, o homem se fez então “mestre e senhor da natureza”. Resultou daí um extraordinário desenvolvimento das ciências e das técnicas, mas também a exploração desenfreada de uma natureza composta, a partir de então, de objetos sem ligação com os humanos: plantas, animais, terras, águas e rochas convertidos em meros recursos que podemos usar e dos quais podemos tirar proveito. Naquela altura, a natureza havia perdido sua alma e nada mais nos impedia de vê-la unicamente como fonte de riqueza.
 

Philippe Descola. Outras naturezas, outras culturas. São Paulo: Editora 34, 2016, p.22-23 (com adaptações).

No que se refere aos sentidos e aos aspectos linguísticos do texto anterior, bem como às ideias nele expressas, julgue o item a seguir.

O texto defende que os aborígenes australianos não percebem o fato de que natureza e cultura são distintas.
  1. Errado
  2. Certo
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

Comentário: O item está ERRADO porque a afirmação de que os aborígenes australianos "não percebem o fato de que natureza e cultura são distintas" sugere que existe uma separação clara entre esses conceitos, o que não é defendido no texto. O autor declara que, para os aborígenes, "tudo é natural e cultural ao mesmo tempo", indicando que essa distinção não faz sentido no contexto de sua visão de mundo.

Além disso, ao falar sobre o entendimento do mundo como um todo, o texto critica a noção ocidental de separar e desassociar os elementos da natureza, considerando-a apenas como um recurso. Essa visão é indicada como sendo problemática, sugerindo que a percepção ocidental de uma natureza despojada de seu caráter cultural é limitada e até prejudicial.

Portanto, a afirmação contida no item ignora a ideia central do texto, que enfatiza que a visão de mundo indígena não divide a realidade em categorias opostas, mas sim as compreende como uma totalidade interconectada. Assim, afirmar que os aborígenes "não percebem" essa distinção é uma interpretação enganosa, pois eles simplesmente não a reconhecem como uma realidade relevante em suas vidas.

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