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Questão FC89839

Seja como for, está claro que a distinção entre o que seria natural e o que seria cultural não faz o menor sentido para os aborígenes australianos. Afinal de contas, no mundo deles

Interpretação de Textos (Compreensão)

CEBRASPE (CESPE) · 2022

Seja como for, está claro que a distinção entre o que seria natural e o que seria cultural não faz o menor sentido para os aborígenes australianos. Afinal de contas, no mundo deles, tudo é natural e cultural ao mesmo tempo. Para que se possa falar de natureza, é preciso que o homem tome distância do meio ambiente no qual está mergulhado, é preciso que se sinta exterior e superior ao mundo que o cerca. Ao se extrair do mundo por meio de um movimento de recuo, ele poderá perceber este mundo como um todo. Pensando bem, entender o mundo como um todo, como um conjunto coerente, diferente de nós mesmos e de nossos semelhantes, é uma ideia muito esquisita. Como diz o grande poeta português Fernando Pessoa, vemos claramente que há montanhas, vales, planícies, florestas, árvores, flores e mato, vemos claramente que há riachos e pedras, mas não vemos que há um todo ao qual isso tudo pertence, afinal só conhecemos o mundo por suas partes, jamais como um todo. Mas, a partir do momento em que nos habituamos a representar a natureza como um todo, ela se torna, por assim dizer, um grande relógio, do qual podemos desmontar o mecanismo e cujas peças e engrenagem podemos aperfeiçoar. Na realidade, essa imagem começou a ganhar corpo relativamente tarde, a partir do século XVII, na Europa. Esse movimento, além de tardio na história da humanidade, só se produziu uma única vez. Para retomar uma fórmula muito conhecida de Descartes, o homem se fez então “mestre e senhor da natureza”. Resultou daí um extraordinário desenvolvimento das ciências e das técnicas, mas também a exploração desenfreada de uma natureza composta, a partir de então, de objetos sem ligação com os humanos: plantas, animais, terras, águas e rochas convertidos em meros recursos que podemos usar e dos quais podemos tirar proveito. Naquela altura, a natureza havia perdido sua alma e nada mais nos impedia de vê-la unicamente como fonte de riqueza.
 

Philippe Descola. Outras naturezas, outras culturas. São Paulo: Editora 34, 2016, p.22-23 (com adaptações).

No que se refere aos sentidos e aos aspectos linguísticos do texto anterior, bem como às ideias nele expressas, julgue o item a seguir.

Ainda que o texto não defina o que seria a alma da natureza, é possível inferir dos seus sentidos que tal alma possui vínculos com os humanos.
  1. Certo
  2. Errado
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Comentário: O gabarito está CERTO, pois podemos deduzir a partir do texto que a "alma da natureza" possui vínculos com os humanos, embora o texto não a defina explicitamente. A expressão "alma da natureza" sugere uma conexão íntima entre o humano e o natural.

O texto menciona que, antes do século XVII, a visão da natureza era diferente. Ao afirmar que "naquela altura, a natureza havia perdido sua alma", o autor indica que, anteriormente, essa alma existia. Essa construção implica que a natureza tinha um significado que ligava os humanos a ela, representando uma relação de interdependência, onde a natureza não era apenas um objeto, mas sim um ente vital e significativo.

Além disso, o texto destaca que, a partir desse ponto de mudança, a natureza passou a ser vista como composta por "objetos sem ligação com os humanos". Essa frase indica que a conexão foi quebrada; se antes havia uma ligação, e agora não há, isso aponta que a "alma" da natureza estava, de fato, relacionada aos humanos antes da transformação do século XVII.

Portanto, as evidências apresentadas no texto nos levam a concluir que, mesmo sem uma definição clara, existe um vínculo intrínseco entre a alma da natureza e a experiência humana, corroborando a afirmativa do item como CERTA.

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