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Questão FC89858

Em O processo, a antevisão do inferno em que se transformaria a burocracia moderna, das culpas imputadas, da tortura anônima e da morte que caracterizam os regimes totalitários do

Interpretação de Textos (Compreensão)

CEBRASPE (CESPE) · 2022

Em O processo, a antevisão do inferno em que se transformaria a burocracia moderna, das culpas imputadas, da tortura anônima e da morte que caracterizam os regimes totalitários do século vinte já é um lugar-comum. O trucidamento (literal) de que K. tornou-se um ícone do homicídio político. “A colônia penal” de Kafka transformou-se em realidade pouco depois de sua morte, quando também os temas da aniquilação e dos “vermes”, de sua Metamorfose, adquiriram macabra realidade. A realização concreta de suas premonições, com pormenores de clarividência, está indissociavelmente relacionada às suas fantasias aparentemente desvairadas. Haveria algum sentido em pensar que, de alguma forma, as previsões claramente formuladas na ficção de Kafka, em O processo principalmente, teriam contribuído para que de fato ocorressem? Seria possível que uma profecia articulada de maneira tão impiedosa tivesse outro destino que não a sua realização? As três irmãs de K. e sua Milena morreram em campos de concentração. O judeu da Europa Central que Kafka ironizou e celebrou foi extinto de maneira abominável. Em termos espirituais, existe a possibilidade de Franz Kafka ter sentido seus dons proféticos como uma visitação de culpa, de que a capacidade de antever o tivesse exposto demais às suas emoções. K. torna-se o cúmplice, perplexo, porém quase impaciente, do crime perpetrado contra ele. Coexistem, em todos os suicídios, a apologia e a aquiescência. Como diz o sacerdote, em triste zombaria (seria mesmo zombaria?): “A justiça nada quer de ti. Acolhe-te quando vens e te deixa ir quando partes”. Essa formulação está muito próxima de ser uma definição da vida humana, da liberdade de ser culpado, que é a liberdade concedida ao homem expulso do Paraíso. Quem, senão Kafka, teria sido capaz de dizer isso em tão poucas palavras? Ou se saber condenado por ter sido capaz de fazê-lo?
 

George Steiner. Um comentário sobre O processo d e Kafka. In: Nenhuma paixão desperdiçada. Tradução de Maria Alice Máximo. Rio de Janeiro: Record, 2001 (com adaptações).


Acerca dos sentidos, das ideias e dos aspectos linguísticos do texto apresentado, julgue o item a seguir.

O termo “lugar-comum”, no primeiro período do texto, foi utilizado pelo autor para veicular a ideia de que O processo pode ser compreendido como um tipo de fonte geral de onde é possível tirar argumentos e provas para determinadas questões do século vinte.
  1. Errado
  2. Certo
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

Comentário: O gabarito está ERRADO porque o termo “lugar-comum”, utilizado no primeiro período do texto, não deve ser interpretado como uma "fonte geral de onde é possível tirar argumentos e provas". Na verdade, essa expressão se refere a ideias ou conceitos que são considerados triviais e amplamente aceitos, sem originalidade ou novidade.

No trecho mencionado, o autor destaca que a antevisão do inferno causado pela burocracia moderna e as dinâmicas dos regimes totalitários já é algo conhecido por todos, ou seja, tornou-se uma _verdade comum_ que já circula na sociedade. Portanto, o uso de “lugar-comum” sugere que a percepção do totalitarismo e suas consequências é algo que foi absorvido coletivamente.

Assim, o que o autor realmente comunica é a banalização desse cenário apocalíptico, que, por sua gravidade, deveria ter despertado mais reflexão e ação. Portanto, o item confunde o significado de “lugar-comum” ao reduzir sua interpretação a uma noção de fonte de informação, em vez de reconhecer seu verdadeiro sentido como um conceito amplamente aceito e trivializado.

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