Questão FC89920
Há muitas línguas na língua portuguesa. Para dar voz e rosto a culturas e religiosidades tão díspares e distantes, esse idioma passou a existir dentro e fora do seu próprio corpo.
Interpretação de Textos (Compreensão)
CEBRASPE (CESPE) · 2022
Vivemos na mesma casa linguística, mas fazemos dela uma habitação cujas paredes são como as margens dos oceanos. São linhas de costa, fluidas, porosas, feitas de areia em vez de cimento. Em cada uma das divisórias dessa comum residência, mora um mesmo modo de habitar o tempo, um mesmo sentimento do mundo (nas palavras do poeta Drummond). Essa língua é feita mais de alma do que de gramática. A língua não é uma ferramenta. É uma entidade viva. Com esse idioma, construímos e trocamos diversas noções do tempo e diferentes relações entre o profano e o sagrado.
Jorge Amado atravessou o oceano num momento em que as colônias portuguesas na África se preparavam para a luta pela independência. Na década de cinquenta do século passado, intelectuais e artistas africanos estavam ocupados em procurar a sua própria identidade individual e coletiva. Nessa altura, era clara a necessidade de rupturas com os modelos europeus. Escritores de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe procuravam caminhos para uma escrita mais ligada à sua terra e à sua gente. Carecíamos de uma escrita que nos tomasse como não apenas autores de estórias, mas também sujeitos da sua própria história. Precisávamos de uma narrativa que nos escrevesse a nós mesmos.
Muito se especula sobre as semelhanças entre as nações africanas e o Brasil. Essas comparações resultam muitas vezes de simplificações, mistificações e romantizações. Na maior parte das vezes, essas analogias são fundadas em estereótipos que pouco têm a ver com uma realidade que é composta por dinâmicas e complexidades que desconhecemos.
O que é mais africano no Brasil e mais brasileiro na África não é o candomblé, não são as danças nem os tipos físicos das pessoas. O que nos torna tão próximos é o modo como, de um e de outro lado do Atlântico, aprendemos a costurar culturas e criar hibridizações. A presença africana não mora hoje apenas nos descendentes dos escravizados. Essa presença permeia todo o Brasil. Dito de outra maneira: a semelhança não está no pano. Está na costura. Está no costureiro. E esse costureiro é a história. E é a língua que partilhamos. Essa língua é, ao mesmo tempo, linha, pano e mãos tecedeiras.
Mia Couto. As infinitas margens do oceano.
In: Panorama da Contribuição do Brasil para a Difusão do Português. Brasília: FUNAG, 2021, p. 421-424 (com adaptações).
Julgue o item a seguir, considerando aspectos temáticos, estruturais e conceituais do texto 1A16-I.
Segundo o autor do texto, Jorge Amado interferiu de modo deletério na constituição das literaturas africanas de língua portuguesa.
- Errado
- Certo
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
Comentário: A afirmativa de que Jorge Amado interferiu de modo deletério na constituição das literaturas africanas de língua portuguesa é incorreta. O texto em questão claramente posiciona Amado em um contexto histórico e cultural importante, sem sugerir que sua influência tenha sido negativa para as literaturas africanas.
O autor menciona que Jorge Amado "atravessou o oceano num momento em que as colônias portuguesas na África se preparavam para a luta pela independência" e que os "intelectuais e artistas africanos estavam ocupados em procurar a sua própria identidade". Isso indica que, durante esse período, havia uma forte busca por autenticidade e autonomia nas expressões literárias africanas, e não envolve a atribuição de uma influência prejudicial por parte de Amado.
Além disso, a referência a Jorge Amado serve como um marco temporal e cultural, evidenciando a necessidade de uma ruptura com os modelos europeus e a emergência de vozes africanas. O texto enfatiza a riqueza dessa interculturalidade e a construção de uma narrativa que considere as especificidades e diversidades de cada país africano, sem criticar ou desmerecer a figura de Jorge Amado.
Dessa forma, é evidente que a afirmação sobre a influência deletéria de Amado nas literaturas africanas não tem embasamento no texto apresentado, sendo, portanto, ERRADA.
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