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Questão FC910797

Qual a relação entre língua, linguagem e sociedade?

Correntes Pedagógicas e Teorias da Aprendizagem

IAUPE · 2026

Leia o texto a seguir, trecho de uma entrevista concedida pelo linguista Mario Perini a uma revista especializada da área de Linguística. Ele servirá de base para a questão.

 

Qual a relação entre língua, linguagem e sociedade?

 

Posso começar dizendo que a relação entre língua e linguagem é que uma “língua” é uma das maneiras como se manifesta exteriormente a capacidade humana a que chamamos “linguagem”. Mas o termo linguagem é também aplicado a outros tipos de sistemas de comunicação, que normalmente não são chamados línguas, como o sistema de sinais de trânsito e a linguagem das abelhas. Assim, linguagem é um conceito muito mais amplo do que língua: a linguagem inclui as línguas entre suas manifestações, mas não apenas as línguas.

 

Agora, dito isso, podemos afirmar que as relações entre a linguagem (em geral sob a forma das línguas) e a sociedade humana são muitas e muito importantes. Primeiro, observemos que qualquer sociedade minimamente complexa só pode funcionar, e mesmo surgir, através do uso intensivo da linguagem. A sociedade funciona através da cooperação e/ou conflito entre os homens, e a linguagem medeia esses processos de maneira crucial.

 

A língua falada por um povo é parte da imagem que esse povo tem de si mesmo, em certos casos ainda mais significativa do que as unidades políticas em que o povo se organiza. Assim, embora a Alemanha e a Itália só se tenham unificado como nações nos meados do século XIX, havia muitos séculos já que os falantes das respectivas línguas se consideravam “alemães” e “italianos”. Pode-se mencionar também fatos atuais como a atitude dos catalães e dos bascos, que insistem em ser diferentes dos demais espanhóis, em grande parte por falarem outra língua. Vemos aí uma tendência a fazer coincidir as fronteiras linguísticas com as fronteiras nacionais. Isso nem sempre acontece, como se pode ver pela persistência das fronteiras entre os países hispano-americanos, mas mesmo assim um mexicano se sente culturalmente mais próximo de um espanhol ou de um uruguaio do que de seus vizinhos americanos falantes de inglês. A língua é, sintomaticamente, um dos instrumentos mais importantes na mão de governantes que, para bem ou para mal, procuram enfatizar a unidade de um povo ou de uma nação.

 

PERINI, Mário A. Sobre língua, linguagem e Linguística: uma entrevista com Mário A. Perini. ReVEL. Vol. 8, n. 14, 2010. Disponível em: https://www.revel.inf.br/files/entrevistas/revel_14_entrevista_perini.pdf. Acesso em: 12 dez. 2025.

 

Durante uma atividade de leitura de histórias em quadrinhos, uma professora do 6º Ano percebe que os alunos interpretam os sentidos dos textos não apenas a partir das palavras escritas, mas também das imagens, dos gestos dos personagens, dos balões e do contexto social representado. Em vez de corrigir imediatamente as interpretações divergentes que foram aparecendo, ela promove uma discussão coletiva, incentivando os alunos a explicitarem como compreenderam a situação narrada e quais elementos utilizaram para construir o sentido. Ao conduzir a aula dessa forma, ela privilegia a compreensão de que a relação entre língua, linguagem e sociedade se dá em um processo no qual os sentidos se constroem a partir da interação entre sujeitos situados socialmente.

 

Assim, a docente

  1. assume a língua como um instrumento simbólico que rege a interpretação por normas discursivas.
  2. concebe a língua como um repertório de formas que orienta a compreensão dos enunciados.
  3. entende a língua como um código que orienta a leitura por convenções sociais estabilizadas.
  4. reconhece a língua como um sistema social que medeia a produção compartilhada dos sentidos.
  5. valoriza a língua como um elo estruturado que organiza interpretações possíveis de um texto.
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Gabarito

D

Comentário do professor

Ao optar por discutir interpretações em vez de corrigir imediatamente, a professora evidencia que vê a língua como um sistema social que organiza práticas e recursos de comunicação.

Esse sistema social media a relação entre procedimentos linguísticos e contextos, oferecendo normas e repertórios para construir sentido entre interlocutores.

Ao considerar imagens, gestos, balões e contexto, ela adota uma visão multimodal, reconhecendo que o significado emerge da interação entre vários recursos e não apenas do texto escrito.

Promovendo a explicitação e a negociação entre alunos, a docente facilita a produção compartilhada dos sentidos, um processo coletivo em que se confrontam hipóteses e se alinham interpretações.

Essa postura valoriza os sujeitos situados socialmente e desenvolve competências críticas e metalinguísticas para compreender como a linguagem opera na vida social.

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