Questão FC910798
Qual a relação entre língua, linguagem e sociedade?
Correntes Pedagógicas e Teorias da Aprendizagem
IAUPE · 2026
Leia o texto a seguir, trecho de uma entrevista concedida pelo linguista Mario Perini a uma revista especializada da área de Linguística. Ele servirá de base para a questão.
Qual a relação entre língua, linguagem e sociedade?
Posso começar dizendo que a relação entre língua e linguagem é que uma “língua” é uma das maneiras como se manifesta exteriormente a capacidade humana a que chamamos “linguagem”. Mas o termo linguagem é também aplicado a outros tipos de sistemas de comunicação, que normalmente não são chamados línguas, como o sistema de sinais de trânsito e a linguagem das abelhas. Assim, linguagem é um conceito muito mais amplo do que língua: a linguagem inclui as línguas entre suas manifestações, mas não apenas as línguas.
Agora, dito isso, podemos afirmar que as relações entre a linguagem (em geral sob a forma das línguas) e a sociedade humana são muitas e muito importantes. Primeiro, observemos que qualquer sociedade minimamente complexa só pode funcionar, e mesmo surgir, através do uso intensivo da linguagem. A sociedade funciona através da cooperação e/ou conflito entre os homens, e a linguagem medeia esses processos de maneira crucial.
A língua falada por um povo é parte da imagem que esse povo tem de si mesmo, em certos casos ainda mais significativa do que as unidades políticas em que o povo se organiza. Assim, embora a Alemanha e a Itália só se tenham unificado como nações nos meados do século XIX, havia muitos séculos já que os falantes das respectivas línguas se consideravam “alemães” e “italianos”. Pode-se mencionar também fatos atuais como a atitude dos catalães e dos bascos, que insistem em ser diferentes dos demais espanhóis, em grande parte por falarem outra língua. Vemos aí uma tendência a fazer coincidir as fronteiras linguísticas com as fronteiras nacionais. Isso nem sempre acontece, como se pode ver pela persistência das fronteiras entre os países hispano-americanos, mas mesmo assim um mexicano se sente culturalmente mais próximo de um espanhol ou de um uruguaio do que de seus vizinhos americanos falantes de inglês. A língua é, sintomaticamente, um dos instrumentos mais importantes na mão de governantes que, para bem ou para mal, procuram enfatizar a unidade de um povo ou de uma nação.
PERINI, Mário A. Sobre língua, linguagem e Linguística: uma entrevista com Mário A. Perini. ReVEL. Vol. 8, n. 14, 2010. Disponível em: https://www.revel.inf.br/files/entrevistas/revel_14_entrevista_perini.pdf. Acesso em: 12 dez. 2025.
Em uma aula sobre variação linguística, um professor solicita que os alunos relatem situações do cotidiano em que ouviram diferentes maneiras de falar português. Durante os relatos orais, surgem exemplos de variação regional e social, que são discutidos coletivamente. O professor evita classificar as falas como “certas” ou “erradas” e orienta os alunos a refletirem sobre os contextos em que cada forma é utilizada.
Nessa situação, o professor mostra que concebe a língua como prática social historicamente situada, e seu trabalho com a oralidade, a partir dessa concepção, contribui para que os alunos
- compreendam que as variações linguísticas se relacionam a usos frequentes em determinados grupos.
- entendam que as variações linguísticas resultam de ajustes dos falantes às situações de comunicação.
- identifiquem que as variações linguísticas coexistem com modelos socialmente mais valorizados.
- percebam que as variações linguísticas refletem diferentes formas de organização e interação social.
- reconheçam que as variações linguísticas expressam escolhas adequadas a contextos específicos.
Mostrar resposta e comentário
Gabarito
D
Comentário do professor
Ao solicitar relatos orais e evitar julgamentos de “certo” ou “errado”, o professor evidencia que a língua é prática social historicamente situada. Essa postura leva os alunos a entenderem que as variações linguísticas não são falhas, mas escolhas vinculadas a contextos sociais.
Em sala, os exemplos regionais e sociais ilustram como diferentes formas de organização e interação social se manifestam na fala: pertencimento a grupos, identidade regional, níveis de formalidade, posições de poder, e práticas profissionais ou geracionais. O foco no contexto mostra que a língua funciona segundo finalidades comunicativas e relações sociais.
Assim, os estudantes passam a reconhecer e analisar a diversidade linguística, desenvolvendo consciência linguística e respeito pelas variedades como reflexos de estruturas sociais.
Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em