Questão FC910808
— Por acaso o senhor é professor? — Como soube?
Correntes Pedagógicas e Teorias da Aprendizagem
IAUPE · 2026
Leia o texto abaixo e em seguida, responda a questão.
A ESCOLA AFASTADA DA VIDA
Antonio Perez Esclarín
Derrubaram a velha escola e, em seu lugar, ergueram uma escola moderníssima e valiosa. Construída com ricos materiais, o luxo e a elegância brilhavam por todos os lugares. Nada lhe faltava: laboratórios, biblioteca, centros de orientação… Não obstante, os alunos definhavam de tédio e se sentiam estranhos, como em uma jaula dourada.
O diretor não podia ocultar seu desconcerto, pois estava convencido de que a antiga apatia dos alunos se devia às pobres condições da velha escola e pensava que, na nova, tudo se modificaria.
Um dia, um sábio pedagogo visitou a escola e, depois de escutar a queixa do diretor, levou-o a uma estação de trens que contava com todos os avanços tecnológicos e era uma obra-prima arquitetônica, mas tinha um único e gravíssimo problema: tinham-na construído longe dos trilhos. Por ali, não passava nenhum trem.
— Tudo muito bonito e moderno, disse o diretor, mas para que serve uma estação longe dos trens?
— E para que serve sua nova e luxuosa escola, se continua longe da vida? Creio que li em uma das obras de Tony de Mello a história do paraquedista que caiu na copa de uma árvore sem ter a menor ideia de onde se encontrava. Antes de poder desembaraçar-se dos ramos da árvore, passou por ali um caminhante, e o paraquedista lhe perguntou:
— O senhor poderia, por favor, dizer-me onde estou?
— O senhor se encontra em uma árvore.
— Por acaso o senhor é professor? — Como soube?
— Porque o que diz é verdade, mas não me serve de nada.
Mostra-se, também, pertinente a história de um menino realmente habilidoso que vivia sempre inventando, consertando coisas, desmontando e voltando a montar aparelhos, plantando sementes, recolhendo ninhos, fabricando carrinhos… e costumava dizer: “Agora tenho de abandonar a aprendizagem por um grande período de tempo, porque tenho de ir à escola”.
Uma das maiores fatalidades da escola atual é seu afastamento da vida. O mundo escolar construiu um mundo artificial dentro do mundo real, e a maioria das coisas que se exigem e se aprendem na escola só serve para permanecer ou continuar ascendendo em uma corrida de obstáculos que, com demasiada frequência, não leva a lugar algum. A escola gira e gira em um mundo irreal e sem importância, de conhecimentos mortos, em que o saber, em vez de ser capacidade para viver com maior plenitude, é concebido como acúmulo de dados desconexos, datas, conceitos, fórmulas, números… recital de um rito sem sentido.
Só educaremos para a vida se a escola, os programas, os conteúdos estiverem imersos na realidade e na vida cotidiana do aluno, de sua família, do bairro, do povoado, da cidade, do país. O autêntico planejamento parte da experiência, dos saberes, dos sentimentos e das necessidades dos alunos, de tal modo a mergulhar a prática escolar na prática social cotidiana de sua vida. Abramos à vida os portões e as janelas das escolas. Deixemos que a realidade invada os programas. Não esqueçamos que só é possível preparar para a vida no âmbito da própria vida. Não nos queixemos da apatia dos alunos, se o ideal de nossas escolas parece ser o silêncio e a paz dos cemitérios.
ESCLARÍN, Antonio Perez. Educar valores e o valor de educar: parábolas. São Paulo: Paulus, 2002.
A necessária articulação entre teoria e prática torna-se evidente ao confrontarmos a crítica de Perez Esclarín (1998), ao questionar “para que serve sua nova e luxuosa escola, se continua longe da vida?”, com a definição de Libâneo (2013).
Nesse contexto, segundo o autor, compete à Didática “converter os objetivos sociopolíticos e pedagógicos em objetivos de ensino; selecionar e organizar os conteúdos curriculares”.
Para superar tal distanciamento e efetivar a Didática como mediadora entre a escola e a realidade social, o docente deve
- priorizar a transmissão rigorosa do acervo cultural e científico, entendendo que a apropriação teórica dos conhecimentos universais constitui a finalidade última da educação escolar.
- fundamentar a organização do ensino nos processos cognitivos individuais, alinhando as estratégias didáticas às etapas de maturação biológica e psicológica dos discentes.
- incorporar metodologias ativas e tecnologias digitais ao cotidiano escolar, modernizando os recursos instrucionais para elevar a atratividade das aulas frente à cultura juvenil.
- enfatizar a verificação sistemática do rendimento escolar, utilizando indicadores de desempenho padronizados para monitorar o cumprimento das metas curriculares estabelecidas.
- articular as dimensões técnica e política do ensino, promovendo a contextualização dos conteúdos curriculares em sua relação com a prática social vivenciada pelos alunos.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
A alternativa aponta que o professor deve articular as dimensões técnica e política do ensino, ou seja, unir métodos, objetivos e organização curricular à dimensão sociopolítica da educação. A dimensão técnica envolve converter objetivos em estratégias de ensino, selecionar e sequenciar conteúdos; a dimensão política diz respeito à formação crítica, à cidadania e aos propósitos sociais da escola.
Promover a contextualização dos conteúdos significa relacioná‑los com a prática social vivenciada pelos alunos: temas do bairro, da família, do trabalho e dos problemas locais devem orientar atividades, projetos e avaliações.
Na prática, isso implica usar projetos, estudos de caso, visitas e problemas reais (por exemplo, matemática aplicada ao orçamento doméstico; história a partir da memória local), de modo que o saber se torne capacidade para agir, refletir e transformar a realidade.
Assim a Didática cumpre seu papel mediador: aproxima a escola da vida, combate a apatia e favorece aprendizagens significativas e socialmente relevantes.
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