Questão FC910846
— Por acaso o senhor é professor? — Como soube?
Planejamento do Ensino e Organização Didática
IAUPE · 2026
Leia o texto abaixo e em seguida, responda a questão.
A ESCOLA AFASTADA DA VIDA
Antonio Perez Esclarín
Derrubaram a velha escola e, em seu lugar, ergueram uma escola moderníssima e valiosa. Construída com ricos materiais, o luxo e a elegância brilhavam por todos os lugares. Nada lhe faltava: laboratórios, biblioteca, centros de orientação… Não obstante, os alunos definhavam de tédio e se sentiam estranhos, como em uma jaula dourada.
O diretor não podia ocultar seu desconcerto, pois estava convencido de que a antiga apatia dos alunos se devia às pobres condições da velha escola e pensava que, na nova, tudo se modificaria.
Um dia, um sábio pedagogo visitou a escola e, depois de escutar a queixa do diretor, levou-o a uma estação de trens que contava com todos os avanços tecnológicos e era uma obra-prima arquitetônica, mas tinha um único e gravíssimo problema: tinham-na construído longe dos trilhos. Por ali, não passava nenhum trem.
— Tudo muito bonito e moderno, disse o diretor, mas para que serve uma estação longe dos trens?
— E para que serve sua nova e luxuosa escola, se continua longe da vida? Creio que li em uma das obras de Tony de Mello a história do paraquedista que caiu na copa de uma árvore sem ter a menor ideia de onde se encontrava. Antes de poder desembaraçar-se dos ramos da árvore, passou por ali um caminhante, e o paraquedista lhe perguntou:
— O senhor poderia, por favor, dizer-me onde estou?
— O senhor se encontra em uma árvore.
— Por acaso o senhor é professor? — Como soube?
— Porque o que diz é verdade, mas não me serve de nada.
Mostra-se, também, pertinente a história de um menino realmente habilidoso que vivia sempre inventando, consertando coisas, desmontando e voltando a montar aparelhos, plantando sementes, recolhendo ninhos, fabricando carrinhos… e costumava dizer: “Agora tenho de abandonar a aprendizagem por um grande período de tempo, porque tenho de ir à escola”.
Uma das maiores fatalidades da escola atual é seu afastamento da vida. O mundo escolar construiu um mundo artificial dentro do mundo real, e a maioria das coisas que se exigem e se aprendem na escola só serve para permanecer ou continuar ascendendo em uma corrida de obstáculos que, com demasiada frequência, não leva a lugar algum. A escola gira e gira em um mundo irreal e sem importância, de conhecimentos mortos, em que o saber, em vez de ser capacidade para viver com maior plenitude, é concebido como acúmulo de dados desconexos, datas, conceitos, fórmulas, números… recital de um rito sem sentido.
Só educaremos para a vida se a escola, os programas, os conteúdos estiverem imersos na realidade e na vida cotidiana do aluno, de sua família, do bairro, do povoado, da cidade, do país. O autêntico planejamento parte da experiência, dos saberes, dos sentimentos e das necessidades dos alunos, de tal modo a mergulhar a prática escolar na prática social cotidiana de sua vida. Abramos à vida os portões e as janelas das escolas. Deixemos que a realidade invada os programas. Não esqueçamos que só é possível preparar para a vida no âmbito da própria vida. Não nos queixemos da apatia dos alunos, se o ideal de nossas escolas parece ser o silêncio e a paz dos cemitérios.
ESCLARÍN, Antonio Perez. Educar valores e o valor de educar: parábolas. São Paulo: Paulus, 2002.
Releia o trecho abaixo:
"A escola gira e gira em um mundo irreal e sem importância, de conhecimentos mortos, em que o saber... é concebido como acúmulo de dados desconexos, datas, conceitos, fórmulas, números… recital de um rito sem sentido."
Para que a escola possa aproximar-se da vida, como sugere o autor, é necessário que o professor realize a transformação do conhecimento científico e cultural, denominado de "Saber Sábio", em conteúdo a ser ensinado nas escolas, o "Saber Ensinado".
No campo da Didática, o nome que se atribui a essa etapa de recontextualização e adaptação do saber para o ensino é
- Educação Bancária.
- Transposição Didática.
- Currículo Oculto.
- Contrato Didático.
- Aprendizagem Significativa.
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Gabarito
B
Comentário do professor
Transposição Didática é o nome dado ao processo pelo qual o conhecimento científico e cultural, o saber sábio, é transformado em conteúdos e atividades próprios do ensino, o saber ensinado.
Esse processo envolve a seleção do que ensinar, a simplificação e a reformulação da linguagem, a organização em sequências didáticas e a escolha de tarefas e recursos que tornem o conteúdo compreensível e operacional para os alunos.
O objetivo central é tornar o saber relevante e conectado à vida do estudante, convertendo dados abstratos em situações significativas, contextualizadas no cotidiano, na realidade da turma e nos objetivos pedagógicos.
Portanto, a transposição didática é a mediação intencional do professor entre o saber científico e a prática escolar, condicionada por currículo, tempo e recursos, visando aprendizagem efetiva.
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