Questão FC228671
[…] Florestan, tendo inspirado a juventude que fundou o Movimento Negro Unificado, no final dos anos 1970, [percebeu] que a democracia racial brasileira, mais que um ideal normativ
Raça, Etnia e Migração
FCC · 2022
[…] Florestan, tendo inspirado a juventude que fundou o Movimento Negro Unificado, no final dos anos 1970, [percebeu] que a democracia racial brasileira, mais que um ideal normativo […], tinha se transformado em mito. Mito não no sentido de falsidade, como alguns pensam, mas no sentido de uma ideologia dominante, de uma percepção de classe que pensa o seu ideal de conduta como verdade efetiva. O mito consistiria em tomar o que eram desigualdades raciais – próprias da ordem racial escravocrata – como desigualdades de classes da ordem competitiva – próprias do capitalismo industrial. A burguesia e a classe média brasileiras projetavam tal ideal de comportamento de classe de modo a encobrir o seu racismo.
(Adaptado de: GUIMARÃES, Antonio Sérgio Alfredo. Prefácio. In: FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes: o legado da “raça branca”. v. 1. 5.ed. São Paulo: Editora Globo, 2008, p. 12-13)
Em relação aos anos que se seguiram após a abolição da escravatura e o mito da democracia racial brasileira, tal como analisado por Florestan Fernandes para o caso de São Paulo no início do século XX, é correto afirmar:
- Com o fim do Império, o fato de que as elites dominantes avaliaram a importância de compensar as populações negras por séculos de opressão nas senzalas contribuiu para a difusão da ideia de que seria possível alcançar a igualdade racial em um país multiétnico.
- Com a crise do regime escravocrata, as camadas populares assumem a condução do processo revolucionário, passando a determinar e conduzir os processos políticos engendrados pela nova ordem republicana.
- Operou-se, com a Lei Áurea, a continuação de um mecanismo típico da escravidão: a igualdade perante Deus equivaleria, agora, à igualdade perante a Lei − o que, de um lado, abrandava os efeitos da servidão e, de outro, garantia a inserção plena da população negra na nova ordem democrática.
- A ilusão de igualdade entre brancos e negros, presente desde o período colonial, foi suprimida graças à conformação das relações raciais aos fundamentos jurídicos e éticos que se seguiram à Proclamação da República em 1889.
- A promessa de uma igualdade futura como prevenção de possíveis tensões raciais e a permanência de um padrão de integração gradativa à sociedade de classes mantiveram a população negra alheia às possibilidades de ascensão social, perpetuando sua condição degradada de existência.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
A alternativa destaca um mecanismo ideológico: a promessa de igualdade futura combinada com um projeto de integração gradativa funcionou como dispositivo para prevenção de possíveis tensões raciais e contenção de reivindicações imediatas.
Ao postergar direitos e melhorias, essa promessa atuou como um freio à mobilização: a população negra foi encorajada a aguardar uma inclusão progressiva em vez de disputar acesso direto a recursos, emprego qualificado, terra e educação.
Esse processo manteve muitos negros alheios às possibilidades de ascensão social, reproduzindo exclusão econômica e social. Assim, a desigualdade estrutural persistiu, preservando a condição degradada de existência.
O quadro corresponde à leitura de Florestan sobre o mito da democracia racial como ideologia que oculta o racismo estrutural e naturaliza a hierarquia social.
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