Questão FC291966
Recentemente, a “nova esquerda” dos novos movimentos sociais, dos movimentos das minorias sobretudo, passou a tematizar o “direito à diferença”. Com base na convicção da “legitimid
Organização Social e Cidadania
CEBRASPE (CESPE) · 2022
Recentemente, a “nova esquerda” dos novos movimentos sociais, dos movimentos das minorias sobretudo, passou a tematizar o “direito à diferença”. Com base na convicção da “legitimidade das diferenças”, passou-se a propor como novos imperativos categóricos para a esquerda o “respeito às diferenças”, a “defesa das identidades coletivas”, a “preservação das particularidades culturais”, o “respeito das mentalidades específicas”, a “irredutibilidade das experiências de gênero” e assim por diante. Ora muito bem, estas novas divisas de esquerda, que podem ser resumidas na reivindicação do “direito à diferença”, trazem em si mesmas um ardil, que a meu ver provém justamente desta sua ambiguidade, uma debilidade hereditária: o fato de ter sido o amor da diferença alimentado no campo (ultra)conservador duzentos anos a fio, e só mui recentemente incorporado em algumas faixas ou zonas do campo de esquerda, este fato torna o clamor pelo “direito à diferença” dificilmente distinguível da defesa das diferenças própria do estoque de certezas do senso comum conservador.
Antônio Flávio Pierucci. Ciladas da diferença. In: Tempo Social. São Paulo, 2 (2), p. 15-16, 1990 (com adaptações).
A partir das reflexões apresentadas no texto precedente, julgue o próximo item.
A ambiguidade existente na defesa de certos direitos é uma marca que, constatada no texto apresentado, que data de 1990, continua presente na atualidade.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
O item foi julgado CERTO porque o texto de Pierucci evidencia que o apelo ao direito à diferença contém uma tensão intrínseca: embora hoje seja defendido por parcelas da esquerda (movimentos de minorias e identidades), essa mesma valorização da diferença foi historicamente cultivada pelo campo conservador, tornando difícil distingui‑lo de uma retórica conservadora.
Essa ambiguidade permanece atualmente: debates sobre multiculturalismo, direitos coletivos e exceções culturais mostram como a linguagem da diferença pode servir tanto para ampliar reconhecimento quanto para justificar exclusões. A separação entre reconhecimento de identidades e demandas por igualdade socioeconômica (redistribuição) mantém vivo o problema diagnosticado por Pierucci, daí a validade contemporânea da assertiva.
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