Questão FC475041
Texto Por onde pude andar, no Brasil ou em outros cantos do mundo, prestei mais atenção nas águas do que nas edificações urbanas que se debruçam sobre elas — pois todos os nossos a
História Geral
CEBRASPE (CESPE) · 2023
Texto
Por onde pude andar, no Brasil ou em outros cantos do mundo, prestei mais atenção nas águas do que nas edificações urbanas que se debruçam sobre elas — pois todos os nossos assentamentos humanos, na Europa, na Ásia, na África, por todos os lados, sempre foram atraídos pelos rios. Nas salas de aula, as crianças escutam que uma das civilizações mais antigas do mundo nasceu no delta do rio Nilo, no Egito, cujas águas irrigavam suas margens, propiciando condições para a agricultura e para sua civilização. Sempre estivemos perto da água, mas parece que aprendemos muito pouco com a fala dos rios. As cidades, principalmente as grandes, foram se espalhando por cima dos corpos dos rios a ponto de não termos quase mais nenhum respeito por eles. O corpo da Terra não aguenta mais cidades, pelo menos não essas que se configuram como uma continuidade das pólis do mundo antigo, com gente protegida por muros, e o resto do lado de fora — indígenas, quilombolas, ribeirinhos. Além disso, as metrópoles são um sorvedouro de energia. Ainda há quem tenha a pachorra de dizer que o Brasil é vanguarda na produção de energia limpa. Eu não sei que história é essa, se você botar um filtro de sangue nas hidrelétricas de Tucuruí, Balbina, Belo Monte, Santo Antônio e Jirau, ele entope.
Ailton Krenak. Futuro ancestral. Companhia das Letras, 2022 (com adaptações).
Considerando as ideias do texto precedente e os diversos assuntos a ele relacionados, julgue o item.
A afirmação de que “O corpo da Terra não aguenta mais cidades” se contrapõe à ideia de desenvolvimento permeada no século XIX, período em que o avanço das cidades era utilizado como parâmetro para a hierarquização dos povos.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
Item CERTO. A frase de Krenak "O corpo da Terra não aguenta mais cidades" nega a ideia de que urbanizar mais equivale a progredir, confrontando a visão do século XIX que via a cidade como índice de civilização.
No século XIX, com industrialização, positivismo e darwinismo social, a urbanização como progresso serviu para hierarquizar povos: metrópoles europeias eram modelo e povos indígenas, africanos e ribeirinhos eram tidos como "atrasados".
O texto descreve as metrópoles como sorvedouros de energia e como uma continuidade excludente da pólis, criticando custos sociais e ambientais dessa lógica.
Portanto, a afirmação contrapõe-se àquela matriz oitocentista ao ressaltar os limites ecológicos e a necessidade de valorizar modos de vida que respeitam rios e territórios.
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