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Questão FC883509

Atenção: A questão refere-se ao texto seguinte. Os bons selvagens mirins Garotos podem ser maus? Embora a visão romantizada da infância sugira a existência de uma pureza primordial

Manual de Redação da Presidência da República (MRPR)

FCC · 2010

Atenção: A questão refere-se ao texto seguinte.

Os bons selvagens mirins

Garotos podem ser maus? Embora a visão romantizada da infância sugira a existência de uma pureza primordial, crianças, como qualquer outro animal social, são capazes tanto de atitudes do mais profundo egoísmo − de crueldade mesmo − quanto de gestos altruístas. É um clássico caso de copo meio cheio ou meio vazio.

E a pergunta interessante é: por que tanta gente deixa seletivamente de ver os fatos que não lhe convêm para sustentar o mito da infância angelical? Parte da resposta está na biologia. Bebês e crianças comovem e mobilizam nossos instintos de cuidadores. Estes serezinhos foram "desenhados" com características que exploram nossos vieses sensórios. Tais traços são há décadas conhecidos de artistas como Walt Disney.

E, se essa é a base biológica do "amor às crianças", sobre ela passaram a operar poderosos fatores culturais, que reforçaram essa predisposição natural até torná-la uma ideologia. Enquanto bebês nasciam aos borbotões e morriam em proporções parecidas − o que ocorreu durante 99,9% da história −, víamos o óbito de filhos como algo, se não natural, ao menos esperado. Evitávamos investir tudo num único rebento. Com o surgimento da família burguesa, a partir do século 16, as coisas começaram a mudar. Ter um bebê e vê-lo chegar à idade adulta deixou de ser uma aposta temerária. Estava aberto o caminho para que o amor paterno pudesse prosperar.

Foi nesse contexto que surgiram, no século 18, pedagogos como Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que criou um novo conceito de infância. Jovens não deveriam ser apenas ensinados, mas educados, respeitando-se as especificidades de seu desenvolvimento natural. O problema é que essa ideia bastante plausível de Rousseau veio misturada com outras, menos razoáveis, como a balela de que o homem é originalmente bom, mas a sociedade o corrompe. Não foi preciso muito para que crianças virassem bons selvagens mirins, a encarnação da bondade primeva. O fato de Rousseau ter se tornado o filósofo mais influente da história, especialmente no pensamento de esquerda, só aumentou o vigor do mito e o tamanho do estrago provocado.

(Hélio Schwartzman, Folha de S. Paulo)

Caso um opositor das teses de Rosseau a ele se dirigisse formalmente, uma redação correta seria:

  1. Venho à presença de Vossa Eminência para manifestar meu desagrado em relação à tese da bondade natural.
  2. Poderia Sua Senhoria explicitar outros argumentos que melhor justifiquem vossa tese?
  3. Não posso concordar com as teses supostamente revolucionárias que Vossa Excelência vindes defendendo.
  4. Senhor: acredito que, ao apresentar suas teses sobre a bondade natural, reveles um pensamento tendencioso.
  5. Vossa Senhoria está, a meu ver, inteiramente equivocada quando defende as teses sobre a bondade natural.
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

A frase está correta porque respeita o tratamento formal em terceira pessoa. Vossa Senhoria rege verbos e pronomes na terceira pessoa, logo está e defende aparecem no singular do indicativo, concordando com o vocativo formal.

O vocábulo a meu ver funciona como expressão parentética e deve ser isolado por vírgulas, daí a pontuação correta: está, a meu ver, inteiramente. Inteiramente é advérbio que intensifica o adjetivo seguinte.

O adjetivo equivocada concorda em gênero com a pessoa tratada; se o interlocutor fosse do sexo masculino, usaria-se a forma correspondente. A oração subordinada iniciada por quando exprime a ação simultânea ou condição e emprega adequadamente o presente defende.

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