Questão FC642097
Ricardo faleceu em 2024, deixando patrimônio avaliado em R$ 2.000.000,00, composto exclusivamente por bens particulares. Ricardo era casado com Paula sob o regime da comunhão parci
Do Direito das Sucessões (arts. 1.784 a 2.027)
FGV · 2026
Ricardo faleceu em 2024, deixando patrimônio avaliado em R$ 2.000.000,00, composto exclusivamente por bens particulares. Ricardo era casado com Paula sob o regime da comunhão parcial de bens e deixou dois filhos, André e Beatriz.
Por testamento público, Ricardo dispôs de todo o seu patrimônio da seguinte forma:
i) atribuiu a André um imóvel avaliado em R$ 800.000,00, gravado com cláusulas de inalienabilidade, incomunicabilidade e impenhorabilidade, sem limitação temporal expressa;
ii) atribuiu à Beatriz, aplicações financeiras no valor de R$ 600.000,00, sem cláusulas restritivas;
iii) destinou os R$ 600.000,00 restantes a uma associação privada, de interesse social.
Em vida, Ricardo havia realizado doação de R$ 300.000,00 a André, sem dispensa de colação. Paula não foi contemplada no testamento.
Aberta a sucessão, surgiram controvérsias quanto à validade das disposições testamentárias, à eficácia das cláusulas restritivas e à forma correta de realização da partilha.
Sobre a hipótese, à luz do Código Civil, assinale a afirmativa correta.
- As cláusulas de inalienabilidade, incomunicabilidade e impenhorabilidade são plenamente válidas, ainda que incidentes sobre bens da legítima e sem limitação temporal, desde que instituídas por testamento.
- As disposições testamentárias devem ser integralmente anuladas, pois a imposição de cláusulas restritivas sobre bens atribuídos a herdeiro necessário viola, por si só, o direito à legítima.
- As cláusulas restritivas são nulas, pois a ausência de limitação temporal expressa impede sua eficácia, devendo os bens ser partilhados livres de quaisquer ônus.
- A doação realizada a André deve ser colacionada, e as disposições testamentárias devem ser reduzidas para preservação da legítima, sendo as cláusulas restritivas eficazes apenas sobre a parte disponível e desde que justificadas.
- A destinação de parte do patrimônio à associação privada afasta a incidência das regras da legítima, permitindo ao testador dispor livremente do restante dos bens entre os descendentes.
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Gabarito
D
Comentário do professor
A doação de R$300.000 feita a André deve ser trazida à colação, nos termos do Art. 2.002 do CC, para igualar as prestações entre descendentes.
Como o patrimônio era exclusivo, Paula, na comunhão parcial, concorre com os descendentes (Art. 1.829, I). A legítima corresponde à metade do patrimônio; assim, a parte disponível é \( \frac{2.000.000}{2} = 1.000.000\).
Ricardo dispôs de R$2.000.000 por testamento, excedendo a parte disponível; portanto, as disposições testamentárias serão reduzidas proporcionalmente para recompor a legítima (Art. 1.967).
Quanto às cláusulas restritivas (inalienabilidade, incomunicabilidade, impenhorabilidade), só vinculam a porção que caiba à parte disponível. Se incidirem sobre a legítima, exigem justa causa declarada no testamento para terem eficácia (Art. 1.848).
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