Questão FC717675
Leia o texto a seguir para responder à questão Literatura de jornal (o que é a crônica) Artur da Távola A crônica é a expressão das contradições da vida e da pessoa do escritor ou
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Instituto AVALIA · 2025
Leia o texto a seguir para responder à questão
Literatura de jornal (o que é a crônica)
Artur da Távola
A crônica é a expressão das contradições da vida e da pessoa do escritor ou jornalista, exposto que fica, com suas vísceras existenciais à mostra no açougue da vida, penduradas à espera do consumo de outros como ele, enrustidos, talvez, na manifestação dos sentimentos, ideias, verdades e pensamentos.
Já escrevi mais de cinco mil crônicas. E a uns estudantes que me pediram uma síntese sobre o gênero, respondi o seguinte:
É o samba da literatura. É ao mesmo tempo a poesia, o ensaio, a crítica, o registro histórico, o factual, o apontamento, a filosofia, o flagrante, o miniconto, o retrato, o testemunho, a opinião, o depoimento, a análise, a interpretação, o humor. Tudo isso ela contém, a polivalente. Direta e simples como um samba. Profunda como a sinfonia.
É compacta, rápida, direta, aguda, penetrante, instantânea (dissolve-se com o uso diário), biodegradável, (...) oxalá perfume, saudade e algum brilho de vida no sorriso ou na lágrima do leitor. A literatura do jornal. O jornalismo da literatura. É a pausa de subjetividade, ao lado da objetividade da informação do restante do jornal. Um instante de reflexão, diante da opinião peremptória do editorial.
É tímida e perseverante. Não se engalana com os grandes edifícios da literatura, mas pode conter alguns de seus melhores momentos. Não se enfeita com os altos sistemas de pensamento, mas pode conter a filosofia do cotidiano e da vida que passa. Não se empavona com a erudição dos tratados, mas pode trazer agudeza de percepção dos bons ensaios.
Para ser boa, não deve ser mastigada. Deve dissolver-se na boca do leitor, deixando um sabor de vivência comum. Deve parecer que já estava escrita há muito tempo na sensibilidade de quem a lê e foi apenas lembrada ou ativada pelo escritor/jornalista que lhe deu forma.
Deve ser rápida como a percepção e demorada como a recordação. Verdadeira como um poente e esperançosa como a aurora. (...) Suave como pele de mulher amada e irritada como uma criança com fome.
Terna como a amamentação e insegura como toda primeira vez. Religiosa como a portadora do mistério e agnóstica como um livre pensador. A crônica nos obriga à síntese, à capacidade de condensar emoções em parágrafos-barragem. Faz-nos prosseguir, mesmo quando nos sentimos repetitivos. É, pois, a expressão jornalístico-literária da necessidade de não desistir de ser e sentir. A crônica é o samba da literatura.
Disponível em: http://www.crmariocovas.sp.gov.br/ntc_l.php?t=044.
Estabeleça a relação entre cada enunciado e a figura de linguagem que ele contém. A seguir, assinale a alternativa que apresenta a correlação correta.
(I) “exposto que fica, com suas vísceras existenciais à mostra no açougue da vida.” (II) “É o samba da literatura.” (III) “Profunda como a sinfonia.” (IV) “[A crônica] é tímida e perseverante.”
(A) Metonímia. (B) Comparação. (C) Metáfora. (D) Prosopopeia. (E) Hipérbole.
- I-C / II-A / III-B / IV-E.
- I-C / II-C / III-B / IV-D.
- I-E / II-C / III-C / IV-D.
- I-E / II-A / III-C / IV-E.
- I-D / II-E / III-A / IV-B.
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Gabarito
B
Comentário do professor
I — Metáfora. Em "exposto que fica, com suas vísceras existenciais à mostra no açougue da vida" há uma identificação implícita entre a intimidade do escritor e órgãos à mostra; não há termo comparativo, ocorre transferência de sentido, marca da metáfora.
II — Metáfora. Em "É o samba da literatura" o texto atribui à crônica, de modo direto, as qualidades do samba, fundindo os dois planos sem palavra comparativa, recurso metafórico.
III — Comparação. "Profunda como a sinfonia" usa o conectivo "como", estabelecendo comparação explícita entre profundidade da crônica e da sinfonia, característica da comparação (simile).
IV — Prosopopeia. Ao dizer que a crônica é "tímida e perseverante" atribui-se a um gênero literário traços humanos, configurando personificação.
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